Texto escrito pelas mãos da minha própria pessoa que eu sou a nível de ser humano da sociedade
Os fatos que descreverei a seguir podem não interessar a ninguém, mas minha necessidade de contá-los é algo que vai além da minha própria compreensão. Não sei se chegarei até o final de minha história, pois o medo se torna cada vez mais difícil de controlar e os momentos de sanidade cada vez mais curtos. Meu nome é Marcus Ben Jones e essa é o relato dos acontecimentos que me trouxeram a um maldito quarto de hospício.
Por volta de um ano e meio atrás, fui contratado por uma universidade do interior como professor de medicina, não havia como negar, trabalhar numa cidade menor, mais tranqüila e com um salário tão bom quanto meu antigo. Mudei-me pra lá na mesma semana. Não demorei muito pra perceber que apesar de menor, a cidade não era tão diferente de outras, tinha seus ricos, pobres e nunca ninguém tinha a ver com os problemas dos outros. A universidade era um lugar caro, o reitor se orgulhava de suas supostas tradições, e os pais do dinheiro supostamente bem investido no futuro dos filhos. Os alunos não se importavam com nada disso.
Sempre achei aquela história de tradições uma idiotice sem tamanho, humilhar e degradar alunos mais novos todo começo de ano, essa era a tradição dos alunos e os professores nunca davam muita atenção para isso. E eu era um deles, havia me adaptado tão bem à cidade que não ligava para nada do que acontecia ao meu redor, desde que não me afetasse. E tudo foi assim, até o começo desse ano.
Por algum motivo que nunca vou entender, ou achar sensato, alguns alunos acharam divertido trancar um garoto durante a noite no laboratório que já havia servido de necrotério, todo tipo de história de terror absurda girava em torno do laboratório, não havia nada demais, as gavetas para os corpos ainda estavam lá, mas vazias, exceto pela número 12, cuja porta estava emperrada há anos e se houvesse algum tipo de misericórdia no mundo, era assim que ela deveria ter permanecido.
O garoto se chamava Jonas, eu o conheci logo no primeiro dia de aula, era um bom garoto, meio devagar no raciocínio, mas esforçado. Segundo as histórias ele havia passado a noite inteira trancado no laboratório e foi encontrado na manhã seguinte, completamente perturbado, havia marcado o próprio corpo com arranhões e algum objeto que não foi encontrado, gritava coisas sem sentido, falava que havia conhecido pesadelos além da nossa compreensão e cantava coisas absurdas num idioma inventado.
Os psicólogos disseram que era ele só estava em estado de choque e logo se recuperaria. Percebi que eles tinham uma noção do tempo bastante fraca depois que o garoto foi internado em um hospício alguns dias depois. As histórias, é claro, só foram se tornando piores, e eu não conseguia mais dar aula no maldito laboratório porque os alunos estavam com medo. Cerca de um mês depois fui visitar o garoto, mais por curiosidade desgraçada do que qualquer compaixão que eu poderia ter por alguém que vi por dois dias. Quando cheguei descobri que a própria família do rapaz mal o visitava, e entendi o porquê assim que entrei no quarto. Não havia nada naquela figura atrofiada que lembrasse Jonas, ele estava amarrado na cama e o médico me disse que não havia muito a se fazer pelo garoto, davam doses de tranqüilizante cada vez mais forte, e mesmo assim o mantinham preso, pois se o efeito passasse, ele acabaria se matando.
Quando percebi que ele não acordaria, resolvi ir embora, foi quando ele começou a falar, a maior parte não fazia sentido, mas em certo momento ele olhou para mim e eu vi naqueles olhos que o acontecia com seu corpo era apenas um efeito da loucura que destruía sua mente.
“Eles chamam meu nome, cada noite que passa, eles querem a mim... cada vez mais perto, eu sei que não resta mais tempo”.
Jonas morreu dois dias depois, uma cena terrível de acordo com as enfermeiras, mas não creio que tenha sido pior do que o que eu já havia visto.
Por duas semanas toda essa história me atormentou até que nem eu conseguia mais acreditar que não havia acontecido nada demais naquele laboratório, resolvi passar a noite lá. A porta número 12 estava emperrada como sempre, e eram três horas da manhã quando percebi que havia caído no sono lá dentro, comecei a achar aquela idéia toda uma besteira, mas antes que resolvesse ir embora, percebi que aquela gaveta havia sido aberta. As pessoas sentem medo, todas elas, a diferença é que os mais inteligentes evitam o que lhes causa medo e os tolos acabam correndo ao encontro delas. E naquele momento eu fui um tolo, fui até a gaveta. Ali vi algo brilhando e lembrei da corrente que Jonas usava, não conseguia entender por que ele teria entrado naquela gaveta, mas meu raciocínio foi interrompido por um som perturbador, vozes, cantando a mesma canção amaldiçoada que o garoto gritava quando foi tirado de lá, eram vozes de homens, mulheres, crianças e algumas inumanas demais para imaginar o que as produziam.
Fui atraído para a gaveta, as vozes cada vez mais altas, estiquei meu braço para pegar aquela corrente, e senti algo tentando me segurar, dedos frios em meu braço e o que ocorreu depois eu não consigo descrever, as visões, o inferno. Existe algo ali dentro, algo que ninguém deveria conhecer, algo que cheira a morte e soa como os condenados ao inferno.
Fui encontrado desmaiado naquela sala, consegui fingir que havia só cochilado lá, assim como consegui passar a semana seguinte fingindo que ainda estava são, foi aí que começaram os sonhos, a figura de Jonas toda noite, chegando cada vez mais perto de mim, seu corpo retorcido, na verdade vários corpos envolvidos no dele como se o puxassem de volta para onde quer que ele esteja, e o pobre garoto esticava sua mão para mim, eu achava que ele queria ser salvo, nunca entendia o que ele falava.
Não queria mais dormir, sempre tinha o mesmo sonho, tentei de todos os meios me manter acordado, os remédios foram a última alternativa, não consegui disfarçar e acabei sendo internado no mesmo hospício que Jonas, deve ser alguma ironia sobrenatural e tenho certeza que alguém riu disso.
Ontem finalmente consegui entender tudo, o garoto não quer ser salvo, ele vem por mim, ele quer a mim e ele iria conseguir isso, talvez hoje ou amanhã. Mas eles não vão me alcançar, tomei consciência do único jeito que pode me livrar dessa maldição e é por isso que escrevo essas páginas aqui, do alto do telhado do hospício, para que quem as leia, entenda por que meu corpo será encontrado jogado na calçada da frente deste prédio.
Se realmente houver um Deus, que ele tenha pena da minha alma.
Um comentário:
Espero que seja apenas uma crônica mal escrita. Se não o for, recomendo abrigo no hospício mais próximo de sua residência.
Postar um comentário